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Deus e o Diabo no Reino do Lago

by Léo Lago

Released June, 2009
Released June, 2009
God and the devil, good and evil, life and death, mythology, the eternal duality of the human soul, all this in songs ranging from rock to experimental.
  • 02:21 Lyrics Prólogo (Prometeu acorrentado)

    - Eis-nos chegados aos confins da terra.
    Vamos, Hefesto! Passa-lhe os elos pelas mãos!
    Prende-os ao rochedo por fortes marretadas!
    Bate ainda mais! Aperta! De tal sorte que ele
    sinta, embora engenhoso, que é inferior a Zeus.
    Prende agora com toda a força este
    gancho de aço, atravessando-lhe o peito.
    Prende agora os pés por meio destes cravos.

     

    -Vê! Que horrendo espetáculo! Ai de ti,
    Prometeu! Como me penaliza tua desgraça!

     

    -Ai de mim!

     

    -Ai de ti, Prometeu!

     

    -Qual foi teu crime, Prometeu?

     

    -Graças a mim, os homens não mais desejam a morte.
    Dei-lhes uma esperança infinita no futuro.
    Consegui que eles participassem do fogo celeste
    e desse mestre aprenderão muitas ciências e artes.

     

    -Rouba-lhes as honras divinas para dá-las a seres
    que não viverão mais que um dia! Poderão,
    por acaso, os mortais, minorar teu suplício?

  • 03:17 Lyrics Prometeu

    Prometeu, Prometeu
    Que crime ´cê cometeu?

     

    A humanidade vivia na escuridão
    Prometeu trouxe o fogo, mostrou o que é bom
    Mas por esse crime ele há de pagar
    Para sempre um abutre o fígado a devorar

     

    Foi preciso um Hércules pra libertar
    Prometeu de sua prisão na beira do mar
    Mas será lembrado eternamente
    No peito de todo aquele que sente

     

    Traga-me a luz, traga o saber
    Traga o que anseio desde o nascer

     

    Ainda existe quem prefira a escuridão
    Da ignorância, ao invés do que é seu
    O fogo do conhecimento que nos trouxe Prometeu

  • 01:50 Lyrics Venham, venham

    Eu tenho o bem
    Eu tenho o mal
    Eu sou o bem
    Eu sou o mal

     

    O mundo é bom
    O mundo é mau
    Eu sou um santo
    Sou pecador

     

    Eu sou eu
    Eu sou meu
    Eu sou todos
    Eu sou Deus

     

    Eu sou eu
    Eu sou meu
    Eu sou todos
    Eu sou o diabo

     

    Então venham, venham
    Venham Deus e o diabo
    Então venham, venham
    Sejam bem-vindos
    Deus e o diabo no Reino do Lago

  • 02:42 Lyrics Ei, Deus (Ei, Diabo)

    Ei, Deus, eu estou cansado
    Eu sou sempre um desgraçado
    Todos me chamam de safado
    Só porque eu sou o diabo
    Tudo que dá errado
    Eu sou sempre o culpado
    É guerra, crime e pecado
    Eu sou sempre o condenado

     

    Ei, diabo, pense em mim
    Tudo sempre é ruim
    Eles vivem a rezar
    Para tudo melhorar
    É sempre pelo amor de Deus,
    vai com Deus, se Deus quiser
    Podiam se virar sozinhos
    E largarem do meu pé

     

    Ei, Deus
    Eles erram, matam, pecam,
    sempre saindo da linha
    E acham que a culpa
    é sempre toda minha

     

    Ei, diabo
    Eles erram, matam, pecam
    e 'tão sempre a reclamar
    E depois querem parar
    para rezar

     

    Ei, Deus, fui eu, não
    Quem inventou a desunião
    Ei, diabo, fui eu, não
    Eu disse vivam como irmãos

     

    Ei, Deus, quando eles erram
    Não sou eu a possuir
    Por que será que é tão difícil
    O seu erro assumir?

     

    Ei, diabo, eles vivem
    Sempre a me renegar
    E dizem que em mim
    Não vão mais acreditar

     

    Ei, Deus
    Eles erram, matam, pecam, sempre saindo da linha
    E acham que a culpa é sempre toda minha

     

    Ei, diabo
    Eles erram, matam, pecam e tão sempre a reclamar
    E depois querem parar para rezar

     

    (que queres tu, meu pobre diabo?)

  • 07:29 Lyrics Súplica dos Justos

    Livra-me dos homens maus
    (Livra-me, Senhor)
    Guarda-me dos que maquinam maldades
    (Guarda-me, Senhor)
    No coração, projetando guerras
    (Livra-me, Senhor)

     

    Aguçaram a língua como serpentes
    Peçonha de áspides debaixo de seus lábios
    Armaram-me laços e cordas
    Puseram-me armadilhas

     

    Senhor, meu libertador
    Cobriste a minha cabeça no dia da batalha

     

    Não levantem a cabeça os que me cercam
    Cubra-os a maldade dos seus lábios
    Caiam-lhes as brasas vivas
    Lançados em covas profundas
    Para que não se tornem a levantar!

     

    Senhor, meu libertador
    Cobriste a minha cabeça no dia da batalha

     

    Dá ouvidos, ó Senhor, à voz das minhas súplicas

  • 01:14 Lyrics Oração da Criança

    Querido Deus,
    gosto muito de você.
    Gosto do papai, da mamãe,
    dos meus irmãos
    e de todos os meus amigos.
    Deus, obrigado pelos brinquedos,
    pela escola, pelas flores,
    pelos bichinhos e por todas as coisas
    boas e bonitas que você fez.
    Quero que todas as crianças
    conheçam e gostem de você.
    Obrigado, Deus,
    porque você é muito bom.

  • 03:28 Vacundê
  • 03:51 Lyrics Hino a Pã

    Eu estremeço em êxtase;
    Plano nas asas da alegria súbita!
    Oh Pã, oh Pã, aparece-nos, pirata do mar,
    Do abismo de pedra de Cilene batida pela neve.
    Rei, criador da dança para os deuses, vem,
    A fim de que juntando-te a nós possas fixar nos
    Passos de Nísia e Cnósia, as tuas danças
    Que aprendeste sozinho. Agora eu quero dançar.
    E possa Apolo, senhor de Delos, caminhar
    Sobre o Mar Ícaro e juntar-se a mim sob a sua forma
    Divina, em benevolência eterna.

     


    Vibra do cio sutil da luz,
    Meu homem e afã
    Vem turbulento da noite a flux
    De Pã! Iô Pã!
    Iô Pã! Iô Pã! Do mar de além
    Vem da Sicília e da Arcádia vem!
    Vem como Baco, com fauno e fera
    E ninfa e sátiro à tua beira,
    Num asno lácteo, do mar sem fim,
    A mim, a mim!
    Vem com Apolo, nupcial na brisa
    (Pegureira e pitonisa),
    Vem com Artêmis, leve e estranha,
    E a coxa branca, Deus lindo, banha
    Ao luar do bosque, em marmóreo monte,
    Manhã malhada da âmbrea fonte!
    Mergulha o roxo da prece ardente
    No ádito rubro, no laço quente,
    A alma que aterra em olhos de azul
    O ver errar teu capricho exul
    No bosque enredo, nos nás que espalma
    A árvore viva que é espírito e alma
    E corpo e mente - do mar sem fim
    (Iô Pã! Iô Pã!),
    Diabo ou deus, vem a mim, a mim!
    Meu homem e afã!
    Vem com trombeta estridente e fina
    Pela colina!
    Vem com tambor a rufar à beira
    Da primavera!
    Com flautas e avenas vem sem conto!
    Não estou eu pronto?
    Eu, que espero e me estorço e luto
    Com ar sem ramos onde não nutro
    Meu corpo, lasso do abraço em vão,
    Áspide aguda, forte leão -
    Vem, está vazia
    Minha carne, fria
    Do cio sozinho da demonia.
    À espada corta o que ata e dói,
    Ó Tudo-Cria, Tudo-Destrói!
    Dá-me o sinal do Olho Aberto,
    E da coxa áspera o Toque ereto,
    E a palavra do louco e do secreto
    Ó Pã! Iô Pã!
    Iô Pã! Iô Pã Pã! Pã Pã! Pã.
    Sou homem e afã:
    Faze o teu querer sem vontade vã,
    Deus grande! Meu Pã!
    Iô Pã! Iô Pã! Despertei na dobra
    Do aperto da cobra.
    A águia rasga com garra e fauce;
    Os deuses vão-se;
    As feras vêm. Iô Pã! A matado,
    Vou no corno levado
    Do Unicornado.
    Sou Pã! Iô Pã! Iô Pã Pã! Pã!
    Sou teu, teu homem e teu afã,
    Cabra das tuas, ouro, deus, clara
    Carne em teu osso, flor na tua vara.
    Com patas de aço os rochedos roço
    De solstício severo a equinócio.
    E raivo, e rasgo, e roussando fremo,
    Sempiterno, mundo sem termo,
    Homem, homúnculo, ménade, afã,
    Na força de Pã.
    Iô Pã! Iô Pã Pã! Pã!

  • 03:28 Lyrics Portador da luz

    Portador da luz
    Quem és tu?

     

    Portador da luz
    Bebeste o sangue de Jesus?
    Foste tu que o pregaste na cruz?
    És o verso da moeda que tem
    Do outro lado a face do bem?
    És tu um rebelde caído
    Ou para este papel foste escolhido?
    És quem tenta a humanidade,
    Orgulhoso e cheio de vaidade,
    Ou amas os mortais sem maldade?
    Ofereceste o fruto por malícia
    Ou nos deste liberdade vitalícia?

     

    Portador da luz
    Qual é tua luz?

  • 02:00 Lyrics A questão da maçã

    Qual seria a sua escolha?
    O que você preferiria?
    Viver no paraíso de olhos fechados
    ou ver a luz,
    mesmo arriscando que essa luz
    seja forte demais para os seus olhos?
    O que você preferiria?
    Qual seria a sua escolha?
    Comer do fruto da árvore da vida,
    queimar-se no fogo do conhecimento,
    possuir a luz da sabedoria,
    ou viver para sempre no
    paraíso da ignorância?
    Não saber é não sofrer
    A escolha é de cada um
    A escolha é sua
    Qual é a sua escolha?

  • 04:20 Lyrics Cantiga profana

    Quero beber do vinho do desconhecido
    Quero provar do fruto que foi proibido
    Deus não escreve livros mas sim a mão do homem
    Já faz tempo não acredito em bicho-papão nem lobisomem

     

    Quero dançar entre xamãs e pajés
    Quero saudar deus Baco - evoé!
    Fazer uma orgia e comungar com a deusa da terra
    Sentir a mãe natureza e descobrir uma nova era

     

    Quero dançar ao som do festim de Pã
    Quero ficar face a face com Satã
    Quero discutir filosofia com anjos, arcanjos e serafins
    Quero entender o que vem do começo e qual é enfim o seu fim

     

    Quero rasgar o antigo e negro véu
    Quero rodar em transe sob o léu
    Quanto conhecimento enterrado sob um lixo de superstição
    Pensam que tudo que não é santo com certeza é do cão

     

    Quero beber da água da fonte da vida
    Quero enfiar meu dedo bem na ferida
    Quero beber seu sangue e comer sua carne numa transmutação
    Quero com o universo inteiro fazer a grande comunhão

     

    Quero sentir o real poder de Deus
    Pois ele vê o mundo pelos olhos meus
    O satanista e o crente são duas faces de uma mesma moeda
    O mal não larga do bem, e o bem do mal não arreda

     

    Quero saber do universo, a verdade
    Quero dar adeus a toda insanidade
    Quero esquecer os monstros das fogueiras, as velhas quimeras
    Quero andar junto aos meus irmãos, filhos dessa terra

     

     

  • 02:25 Lyrics Pompará Promê

    Prometeu desceu à terra
    Trazendo o fogo na mão
    Vem de lá o tal de Zeus
    Prometeu foi pra prisão

     

    Prometeu, Prometeu
    Que crime 'cê cometeu?

  • 01:16 Lyrics Queda de Zeus

    Caíste, Zeus
    Não como um raio
    Mas como um fruto
    Que apodrece no galho

     

    Teu orgulho, ó Zeus
    Teu poder, teus raios
    São explicados
    Pela humana razão

     

    Foste esquecido
    Já não és nada
    Se ninguém acredita
    Em tua majestade

     

    E em silêncio,
    Foste esquecido
    Entre a poeira
    Dos tempos perdido

     

    Caíste, Zeus
    Vencido

  • 03:19 Lyrics Canto de Prometeu

    Encobre, ó Zeus
    Teu céu com tuas nuvens
    E como um garoto
    Colhendo cardos
    Pratica tuas artes
    Em carvalhos e cumes
    Mas tem que deixar-me
    Essa terra que é minha
    E a minha cabana
    Que não construíste
    E essa minha forja
    Cujo fogo ardente
    Tu me invejas

     

    Nada mais pobre eu conheci
    Sob o sol do que vós, deuses!
    Mal conseguis se alimentar
    com tributos de oferendas
    E sopros de preces
    E morreríeis de fome
    com toda vossa majestade
    Se não fossem as crianças
    E os mendigos pobres loucos
    cheios de esperança

     

    Quando eu era criança
    E nada conhecia
    Ao sol se erguiam
    Meus sentidos olhos
    Como se lá houvesse
    Um ouvido a escutar
    Meus tristes lamentos
    E um coração como o meu
    Que fosse consolar
    Toda minha angústia

     

    Quem me ajudou
    Contra todos os Titãs?
    Quem me resgatou
    Da escravidão?
    Não foi meu ardente
    coração sem ajuda?
    E enganado, jovem e bom,
    Por sua salvação queimou
    Agradecido àquele que
    dorme lá em cima?

     

    Eu, prestar-te homenagem?
    Mas pelo quê?
    Alguma vez aliviaste
    A angústia dos oprimidos?
    Alguma vez secaste
    Lágrimas dos infelizes?

     

    Não foi o Tempo
    onipotente
    Que forjou em mim
    a humanidade
    E o Destino eterno
    Meu mestre
    E teu também?

     

    Pensaste talvez
    Que eu fosse odiar
    Esta minha vida
    Fugir aos desertos
    Porque não deram frutos
    Todos meus sonhos?
    Pois aqui estou eu
    Formando homens
    À minha imagem
    Raça como a minha:
    Para chorar e sofrer
    Para sorrir e gozar
    E que te não respeite
    Assim como eu
    Nunca respeitei!

  • 01:11 Dual
  • 04:37 Lyrics Gettin' older ev'ry day

    We´re gettin´ older ev´ryday
    We´re gettin´ older ev´ryday

     

    Quanto tempo ainda tenho?
    Quanto tempo ainda terei?
    Quanto tempo ainda tenho?
    Isso eu nunca saberei
    Pois quando tempo eu não tiver mais
    Então será tarde demais
    Tarde demais para saber

     

    Memento mori
    Tempus fugit

     

    vulnerant omnes,
    ultima necat

     

    Vita brevis breviter
    in brevi finietur,
    Mors venit velociter
    que neminem veretur

  • 08:49 Lyrics Pandora/Roda dos séculos


    - Tu sempre dirás que queres viver!

     

    Caiu do ar? destacou-se da terra? não sei; sei que um vulto imenso, uma figura de mulher me apareceu então, fitando-me uns olhos rutilantes como o sol. Vastidão das formas selváticas, tudo escapava à compreensão do olhar humano. Os contornos perdiam-se no ambiente, e o que parecia espesso era diáfano.

     

    - Quem és tu?

     

    - Chama-me Natureza ou Pandora, pois levo na minha bolsa os bens e os males,
    e o maior de todos, a esperança, consolação dos homens.
    Sou tua mãe e tua inimiga
    Não sou somente a vida; sou também a morte
    Grande lascivo, espera-te a voluptuosidade do nada

     

    - Dê-me mais alguns anos... Meses... Dias... Instantes...

     

    - Para que queres tu mais alguns instantes de vida?
    Para devorar e seres devorado depois?
    Não estás farto do espetáculo e da luta?
    Conheces tudo o que eu te dei menos torpe ou menos aflitivo:
    o alvor do dia. a melancolia da tarde,
    a quietação da noite, os aspectos da Terra,
    o sono, enfim, o maior benefício das minhas mãos.
    Que mais queres tu, sublime idiota?

     

    - Viver somente, não te peço mais nada.
    Quem me pôs no coração este amor da vida, senão tu?
    E, se eu amo a vida, por que te hás de golpear a ti mesma, matando-me?

     

    - Porque já não preciso de ti.

     

    Não importa ao tempo
    o minuto que passa,
    mas o minuto que vem.
    O minuto que vem é forte,
    pois supõe trazer em si
    a eternidade,
    mas traz a morte,
    e perece como o outro,
    mas o tempo subsiste,
    mas o tempo subsiste.

     

    Vejas, então, a redução de todos os séculos!

     

    O desfilar de todos os séculos
    as raças todas,
    todas as paixões,
    o tumulto dos impérios,
    a guerra dos apetites e dos ódios,
    a destruição recíproca dos seres e das coisas.
    a condensação viva de todos os tempos.
    Os séculos desfilam num turbilhão
    flagelos e delícias,
    desde a glória até a miséria,
    e o amor multiplicando a miséria,
    e a miséria agravando a debilidade.
    a cobiça que devora,
    a cólera que inflama,
    a inveja que baba,
    e a enxada e a pena, úmidas de suor,
    e a ambição, a fome, a vaidade,
    a melancolia, a riqueza, o amor,
    e todos agitam o homem, como um chocalho,
    até destruí-lo, como um farrapo.
    formas várias de um mal,
    que ora mordia a víscera,
    ora mordia o pensamento,
    e passeava eternamente as suas vestes de arlequim,
    em derredor da espécie humana.

     

    A dor cedia alguma vez,
    mas cedia a indiferença,
    que era um sono sem sonhos,
    ou ao prazer,
    que era uma dor bastarda.

     

    Então o homem, flagelado e rebelde,
    corria diante da fatalidade das coisas,
    atrás de uma figura nebulosa e esquiva,
    feita de retalhos,
    um retalho de impalpável,
    outro de improvável,
    outro de invisível,
    cosidos todos a ponto precário,
    com a agulha da imaginação;
    e essa figura,
    nada menos que a quimera da felicidade,
    ou lhe fugia perpetuamente,
    ou deixava-se apanhar pela fralda,
    e o homem a cingia ao peito,
    e então ela ria, como um escárnio,
    e sumia-se, como uma ilusão.

     

    E sempre e sempre, de novo e sempre,
    um dia, outro dia e mais outro dia
    um ano, outro ano e todos os anos,
    todos os séculos e todos os séculos

     

    As línguas morriam
    Com o volver dos tempos,
    esquecia-se tudo;
    os heróis se tornavam apenas mitos,
    e a história ia caindo aos pedaços

     

    Os que se foram, nascendo impérios,
    levaram a impressão que eram eternos
    os que expiraram quando decaíam,
    levaram a esperança do recomeço.

     

    Prosperidade e desolação.
    Eternas exéquias, aleluias eternas.

     

    Auroras sobre auroras, ocasos sobre ocasos

     

    E os séculos continuavam a passar,
    velozes e turbulentos,
    as gerações que se superpunham às gerações,
    umas tristes, outras alegres,
    e todas elas pontuais na sepultura.

     

    As idades que vinham chegando e passando
    Cada século trazia a sua porção
    de sombra e de luz,
    de apatia e de combate,
    de verdade e de erro
    e o seu cortejo de sistemas,
    de idéias novas,
    de novas ilusões;
    cada um deles
    rebentavam as verduras de uma primavera,
    e amareleciam depois,
    para remoçar mais tarde.

     

    Fazia-se a história e a civilização,
    e o homem, nu e desarmado,
    armava-se e vestia-se,
    construía o tugúrio e o palácio,
    a rude aldeia e Tebas de cem portas,
    criava a ciência, que perscruta,
    e a arte que enleva,
    fazia orador, mecânico, filósofo,
    corria a face do globo,
    descia ao ventre da Terra,
    subia à esfera das nuvens,
    colaborando assim na obra misteriosa,
    com que entretinha a necessidade da vida
    e a melancolia do desamparo.
    o século presente, e atrás deles os futuros.
    e assim passou e assim passaram os outros
    com a mesma rapidez e igual monotonia,
    até o último.

  • 04:00 Lyrics Epílogo (Viver!)

    Eis-nos chegados ao fim dos tempos.

     

    Sentado em uma rocha, o último homem fita longamente o horizonte, onde passam duas águias cruzando-se.
    Medita, depois sonha. Vai declinando o dia.

     


    -Chego à cláusula dos tempos;
    este é o limiar da eternidade.
    A terra está deserta;
    nenhum outro homem respira o ar da vida.
    Sou o último; posso morrer. Morrer!
    Deliciosa idéia!
    Velha natureza, adeus!
    a morte consola-me.
    Aquela montanha é áspera como a minha dor;
    aquelas águias, devem ser famintas como o meu desespero

     

    -Certo que os homens acabaram; a terra está nua deles.

     

    -Ouço ainda uma voz... Voz de homem? Não, não és homem...

     

    -Não. Prometeu é o meu nome.

     

    -Não me iludes? Tu, Prometeu? Não foi então um sonho da imaginação antiga?

     

    -Olha bem para mim, palpa estas mãos. Vê se existo.

     

    -Tu, Prometeu, criador dos primeiros homens?

     

    -Foi o meu crime. Ouve, último homem!
    O mundo passageiro não pode entender o mundo eterno; mas tu serás o elo entre ambos. uma raça nova povoará a terra, feita dos melhores espíritos da raça extinta. Nobre família, lúcida e poderosa, será perfeita comunhão do divino com o humano. Outros serão os tempos, mas entre eles e estes um elo é preciso, e esse elo és tu.

     

    -Eu?

     

    -Tu mesmo, tu, eleito, tu, rei. Tu serás rei.

     

    -Iludes-me... Rei, eu?

     

    -Tu, rei. Que outro seria? O mundo novo precisa de uma tradição do mundo velho, e ninguém pode falar de um a outro como tu. Assim não haverá interrupção entre as duas humanidades. O perfeito procederá do imperfeito. Contarás aos novos homens todo o bem e todo o mal antigo. Reviverás assim como a árvore a que cortaram as folhas secas, e conserva tão-somente as viçosas; mas aqui o viço é eterno.

     

    -Visão luminosa! Eu mesmo?

     

    -Tu mesmo.

     

    -Estes olhos... estas mãos... vida nova e melhor... Visão excelsa! Fala, fala mais, conta-me tudo.

     

    -A descrição da vida não vale a sensação da vida; tê-la-ás prodigiosa. Lá contarás à gente estupefata não só as grandes ações do mundo extinto, como também os males que ela não há de conhecer, lesão ou velhice, dolo, egoísmo, hipocrisia, a aborrecida vaidade, a inopinável toleima e o resto. A alma terá, como a terra, uma túnica incorruptível.

     

    -Verei ainda este imenso céu azul!

     

    -Olha como é belo.

     

    -Belo e sereno como a eterna justiça. Céu magnífico, ver-te-ei ainda e sempre; tu me darás os dias claros e as noites amigas...

     

    -Auroras sobre auroras.

     

    -Anda, fala mais... fala mais...

     

    (Continua sonhando. As duas águias aproximam-se.)

     


    -Ai, ai, ai deste último homem, está morrendo e ainda sonha com a vida.

    -Nem ele a odiou tanto, senão porque a amava muito.

NOTES
Recorded between December 2007 and May 2009

Léo Lago: vocal, programming and guitar

Participations:
Lucas Lago: vocal on "Oração da criança "
Natasha Juliana Lago: recorder on "Hino a Pã "

All songs by Léo Lago, except:
"Cantiga profana" and "Ei, Deus (Ei, Diabo)", by Léo Lago and Leandro Lago.

All lyrics by Leo Lago, except:
"Prólogo (Prometeu acorrentado)", adapted from "Prometheus bound" by Aeschylus;
"Súplica dos justos ", adapted from Psalm 140;
"Oração da criança", author unknown;
"Hino a Pã" by Aleister Crowley, translated by Fernando Pessoa, introduction from "Ajax" by Sophocles;
"Canto de Prometeu", adapted from "Prometheus" by Goethe;
"Pandora / Roda dos séculos", adapted from the chapter "The delusion" from Posthumous Memoirs of Brás Cubas and from the short story "Live!" by Machado de Assis;
"Epílogo (Viver!)", adapted from the short story "Live!" by Machado de Assis.

Cover by Léo Lago, on photos by Natasha Juliana Lago.
Drawings of booklet by Léo Lago, using as model works by Michelangelo Buonarroti, Francisco de Goya, Salvador Dalí, MC Escher and anonymous artists.

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