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Epílogo (Viver!)

04:00
Léo Lago
2009
Léo Lago adapted from Machado de Assis

Lyrics

Eis-nos chegados ao fim dos tempos.

 

Sentado em uma rocha, o último homem fita longamente o horizonte, onde passam duas águias cruzando-se.
Medita, depois sonha. Vai declinando o dia.

 


-Chego à cláusula dos tempos;
este é o limiar da eternidade.
A terra está deserta;
nenhum outro homem respira o ar da vida.
Sou o último; posso morrer. Morrer!
Deliciosa idéia!
Velha natureza, adeus!
a morte consola-me.
Aquela montanha é áspera como a minha dor;
aquelas águias, devem ser famintas como o meu desespero

 

-Certo que os homens acabaram; a terra está nua deles.

 

-Ouço ainda uma voz... Voz de homem? Não, não és homem...

 

-Não. Prometeu é o meu nome.

 

-Não me iludes? Tu, Prometeu? Não foi então um sonho da imaginação antiga?

 

-Olha bem para mim, palpa estas mãos. Vê se existo.

 

-Tu, Prometeu, criador dos primeiros homens?

 

-Foi o meu crime. Ouve, último homem!
O mundo passageiro não pode entender o mundo eterno; mas tu serás o elo entre ambos. uma raça nova povoará a terra, feita dos melhores espíritos da raça extinta. Nobre família, lúcida e poderosa, será perfeita comunhão do divino com o humano. Outros serão os tempos, mas entre eles e estes um elo é preciso, e esse elo és tu.

 

-Eu?

 

-Tu mesmo, tu, eleito, tu, rei. Tu serás rei.

 

-Iludes-me... Rei, eu?

 

-Tu, rei. Que outro seria? O mundo novo precisa de uma tradição do mundo velho, e ninguém pode falar de um a outro como tu. Assim não haverá interrupção entre as duas humanidades. O perfeito procederá do imperfeito. Contarás aos novos homens todo o bem e todo o mal antigo. Reviverás assim como a árvore a que cortaram as folhas secas, e conserva tão-somente as viçosas; mas aqui o viço é eterno.

 

-Visão luminosa! Eu mesmo?

 

-Tu mesmo.

 

-Estes olhos... estas mãos... vida nova e melhor... Visão excelsa! Fala, fala mais, conta-me tudo.

 

-A descrição da vida não vale a sensação da vida; tê-la-ás prodigiosa. Lá contarás à gente estupefata não só as grandes ações do mundo extinto, como também os males que ela não há de conhecer, lesão ou velhice, dolo, egoísmo, hipocrisia, a aborrecida vaidade, a inopinável toleima e o resto. A alma terá, como a terra, uma túnica incorruptível.

 

-Verei ainda este imenso céu azul!

 

-Olha como é belo.

 

-Belo e sereno como a eterna justiça. Céu magnífico, ver-te-ei ainda e sempre; tu me darás os dias claros e as noites amigas...

 

-Auroras sobre auroras.

 

-Anda, fala mais... fala mais...

 

(Continua sonhando. As duas águias aproximam-se.)

 


-Ai, ai, ai deste último homem, está morrendo e ainda sonha com a vida.

-Nem ele a odiou tanto, senão porque a amava muito.

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