Music

Pandora/Roda dos séculos

08:49
Léo Lago
2009
Léo Lago adapted from Machado de Assis

Lyrics


- Tu sempre dirás que queres viver!

 

Caiu do ar? destacou-se da terra? não sei; sei que um vulto imenso, uma figura de mulher me apareceu então, fitando-me uns olhos rutilantes como o sol. Vastidão das formas selváticas, tudo escapava à compreensão do olhar humano. Os contornos perdiam-se no ambiente, e o que parecia espesso era diáfano.

 

- Quem és tu?

 

- Chama-me Natureza ou Pandora, pois levo na minha bolsa os bens e os males,
e o maior de todos, a esperança, consolação dos homens.
Sou tua mãe e tua inimiga
Não sou somente a vida; sou também a morte
Grande lascivo, espera-te a voluptuosidade do nada

 

- Dê-me mais alguns anos... Meses... Dias... Instantes...

 

- Para que queres tu mais alguns instantes de vida?
Para devorar e seres devorado depois?
Não estás farto do espetáculo e da luta?
Conheces tudo o que eu te dei menos torpe ou menos aflitivo:
o alvor do dia. a melancolia da tarde,
a quietação da noite, os aspectos da Terra,
o sono, enfim, o maior benefício das minhas mãos.
Que mais queres tu, sublime idiota?

 

- Viver somente, não te peço mais nada.
Quem me pôs no coração este amor da vida, senão tu?
E, se eu amo a vida, por que te hás de golpear a ti mesma, matando-me?

 

- Porque já não preciso de ti.

 

Não importa ao tempo
o minuto que passa,
mas o minuto que vem.
O minuto que vem é forte,
pois supõe trazer em si
a eternidade,
mas traz a morte,
e perece como o outro,
mas o tempo subsiste,
mas o tempo subsiste.

 

Vejas, então, a redução de todos os séculos!

 

O desfilar de todos os séculos
as raças todas,
todas as paixões,
o tumulto dos impérios,
a guerra dos apetites e dos ódios,
a destruição recíproca dos seres e das coisas.
a condensação viva de todos os tempos.
Os séculos desfilam num turbilhão
flagelos e delícias,
desde a glória até a miséria,
e o amor multiplicando a miséria,
e a miséria agravando a debilidade.
a cobiça que devora,
a cólera que inflama,
a inveja que baba,
e a enxada e a pena, úmidas de suor,
e a ambição, a fome, a vaidade,
a melancolia, a riqueza, o amor,
e todos agitam o homem, como um chocalho,
até destruí-lo, como um farrapo.
formas várias de um mal,
que ora mordia a víscera,
ora mordia o pensamento,
e passeava eternamente as suas vestes de arlequim,
em derredor da espécie humana.

 

A dor cedia alguma vez,
mas cedia a indiferença,
que era um sono sem sonhos,
ou ao prazer,
que era uma dor bastarda.

 

Então o homem, flagelado e rebelde,
corria diante da fatalidade das coisas,
atrás de uma figura nebulosa e esquiva,
feita de retalhos,
um retalho de impalpável,
outro de improvável,
outro de invisível,
cosidos todos a ponto precário,
com a agulha da imaginação;
e essa figura,
nada menos que a quimera da felicidade,
ou lhe fugia perpetuamente,
ou deixava-se apanhar pela fralda,
e o homem a cingia ao peito,
e então ela ria, como um escárnio,
e sumia-se, como uma ilusão.

 

E sempre e sempre, de novo e sempre,
um dia, outro dia e mais outro dia
um ano, outro ano e todos os anos,
todos os séculos e todos os séculos

 

As línguas morriam
Com o volver dos tempos,
esquecia-se tudo;
os heróis se tornavam apenas mitos,
e a história ia caindo aos pedaços

 

Os que se foram, nascendo impérios,
levaram a impressão que eram eternos
os que expiraram quando decaíam,
levaram a esperança do recomeço.

 

Prosperidade e desolação.
Eternas exéquias, aleluias eternas.

 

Auroras sobre auroras, ocasos sobre ocasos

 

E os séculos continuavam a passar,
velozes e turbulentos,
as gerações que se superpunham às gerações,
umas tristes, outras alegres,
e todas elas pontuais na sepultura.

 

As idades que vinham chegando e passando
Cada século trazia a sua porção
de sombra e de luz,
de apatia e de combate,
de verdade e de erro
e o seu cortejo de sistemas,
de idéias novas,
de novas ilusões;
cada um deles
rebentavam as verduras de uma primavera,
e amareleciam depois,
para remoçar mais tarde.

 

Fazia-se a história e a civilização,
e o homem, nu e desarmado,
armava-se e vestia-se,
construía o tugúrio e o palácio,
a rude aldeia e Tebas de cem portas,
criava a ciência, que perscruta,
e a arte que enleva,
fazia orador, mecânico, filósofo,
corria a face do globo,
descia ao ventre da Terra,
subia à esfera das nuvens,
colaborando assim na obra misteriosa,
com que entretinha a necessidade da vida
e a melancolia do desamparo.
o século presente, e atrás deles os futuros.
e assim passou e assim passaram os outros
com a mesma rapidez e igual monotonia,
até o último.

Join my e-mail list!

Jukebox